Flecha Kabal lança “Abajo del Infierno” e fala sobre coragem, magia e latinidade

No dia 6 de maio de 2026, o mundo conheceu Abajo del Infierno, o mais novo trabalho de Flecha Kabal. Para mergulhar nas camadas de som, misticismo e identidade que compõem o trabalho, Henrique Félix conversou com o artista, que atualmente está no interior da Argentina, e havia acabado de ver a neve pela primeira vez.

O trabalho, que sucede Enfer (2023), mergulha em ambiências cinematográficas e rituais sonoros para explorar temas como identidade, coragem e transcendência.

A entrevista foi adaptada especialmente para o site do Nexalgum. Você também pode ouvir a conversa na íntegra gratuitamente no Patreon do artista.


O momento e a liberdade no Patreon

Henrique Félix: Já queria começar perguntando como você está se sentindo nesse momento e aí nesse momento que eu sei que aconteceu uma coisa muito especial, acabou de acontecer uma coisa muito especial e também nesse momento que esse álbum veio à tona, como que tá a sua vida? Dá uma contada pra gente como o álbum se amarra nesse momento que eu sei que tem tudo a ver, né?

Flecha Kabal: Então agora eu estou aqui na Argentina, primeira vez saindo do Brasil. E estou realizando o sonho de conhecer a neve. Uma semana que eu cheguei, a neve já está caindo. (…)  E coincide muito com o lançamento também, né? Essa coisa de movimento que o disco vai falar muito, liberdade. Eu soltei ele a primeira vez em outubro no meu Patreon. Para quem não sabe, o Patreon é uma plataforma onde você pode apoiar os artistas e existem diferentes níveis de apoio. Lá eu apresentei o álbum pela primeira vez e foi muito legal a resposta que eu tive. Eu não esperava que tanta gente fosse apoiar esse disco. O Spotify nesses anos todos que eu tô nunca me gerou nenhum lucro, entre aspas. E o Patreon me mostrou que existem sim pessoas dispostas a apoiar o artista diretamente e ali eu consegui ver alguns frutos desse disco. E aí 6 meses depois eu decidi soltar ele agora nas plataformas. Eu acho que também é uma maneira de ter ali uma vitrine para mostrar as minhas músicas. Estou muito feliz. As pessoas têm escutado, têm me mandado mensagem e estão chegando num lugar onde eu estava quando eu soltei essas músicas, que é justamente o desejo de ir, bancar os seus desejos e é isso. Acho que o mais legal é poder inspirar as pessoas, sabe.

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Divulgação por Ariel Centeno.

O idioma e o feminino

Henrique Félix: E você foi, né? Agora você tá vivendo uma experiência que quando você produziu, você tava desejando ir, né? E o álbum fala muito disso mesmo, de liberdade. Eu fiz umas anotações aqui, algumas palavras que vão se repetindo e coloquei muito “manifesto” relacionado a manifestar tanto a liberdade quanto a amizade. Eu acho que é um álbum muito celebrativo, mas ele tem muitas nuances assim também. E comparando com o álbum anterior, o Enfer, acho que é um álbum com mais nuances. Mas eu queria falar primeiro em relação ao idioma, porque para esse álbum você se joga muito no espanhol, né? E eu acho interessante na sua perspectiva artística que o idioma ele é um um objeto transitório que pode mudar e que não é limitante a sua música. Eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso, sendo um artista poliglota, estudante de línguas, uma pessoa que se interessa pela forma que as pessoas se comunicam, comunicador também e como que isso entra no seu trabalho artístico?

Flecha Kabal: Eu acho que esse disco ele veio muito no contexto de uma primeira experiência que eu tive lá em Florianópolis. Eu fiz o meu primeiro voluntariado lá entre março e junho do ano passado (2025). E quando eu voltei pra minha cidade, Varginha, eu fui para ajudar meu pai, ele tinha aberto um negócio, aí tava precisando de uma mão lá. Aí o meu disco ele veio muito nesse assim que eu tava precisando, sabe? Porque depois que você vive uma cidade como Florianópolis, que é tão turística e que você tem pessoas do mundo todo, muita novidade, aquela empolgação toda do verão, o calor, e aí voltar para a minha cidade foi muito difícil. Porque é uma cidade do interior, menor, não tem muito o que fazer. E realmente não tava me sentindo mais parte dali. Então, esse álbum vinha muito como respiro para me lembrar também de que eu podia sair, eu sempre poderia voltar a viajar e correr atrás do que me nutria, que me nutre. Então ele também é um pouco uma continuação da narrativa de Enfer, que é literalmente a tradução de Enfer é inferno, só que eu tô indo Abajo del Infierno, que é mais profundo. E o título completo seria Abajo del Infierno existen una chica llamada Perséfone. Então um título bem gigante. [risos] Quase uma poesia. Como se eu também tivesse resgatando algo que é feminino meu e que às vezes a gente tem essa ideia, de que ou você vai para um lado ou você vai pro outro. E aí são questionamentos que eu já tive também em relação ao meu gênero, mas hoje eu entendo que as duas coisas estão ali. E você pode trabalhar esses dois fluxos também dentro de si. E a energia feminina ela tá muito mais nesse lugar da sensibilidade para mim. Quando eu falo feminino, não é necessariamente homem e mulher, não é isso. É pensar mais em Yin e Yang. Essa Perséfone que eu tô indo resgatar lá no Abajo del Infierno. Como e tentando trazer ela para cima. Eu acho também que é um disco que talvez eu compreenda que a melancolia hoje ela faz parte da minha narrativa. Por muito tempo eu fiquei: “caramba, eu sou muito melancólico nas minhas músicas” e poxa, sou é o que eu sou, vou fazer o quê? [risos] Sobre a coisa do idioma, eu acho que ela vem dessa experiência também de Floripa, de poder trocar com tanta gente e eu também não entender que um único idioma deva ser a minha ferramenta. Dá pra gente explorar muita coisa. No primeiro disco foi mais português e tem uma canção em francês. E nesse eu já expandi um pouquinho mais com o espanhol. E a canção que eu canto espanhol também e tem a minha sobrinha lá no final. Foi muito lindo gravar com ela.

Capa por Deborah Amoreira

Henrique Félix: Eu como designer, eu quero muito falar sobre a capa. O projeto é da artista Deborah Amoreira e vocês já trabalharam juntos em outros momentos. Conta pra gente um pouco sobre a experiência.

Flecha Kabal: Eu conheci a Déborah no Espírito Santo quando eu fui visitar um amigo que eu conheci na internet, há muitos anos. Conheci ele pessoalmente em um réveillon e conheci a Débora, a gente se entrosou super bem. Ela é artista plástica e cantora também, e a gente já tinha produzido duas canções juntos. E aí como eu produzi para ela, ela falou: “Olha, faço a capa do seu disco” e artista trabalha assim com permutinha.

Henrique Félix: É, junto a gente vai pra frente, né?

Flecha Kabal: Coletivamente. Eu confio muito na visão dela, então eu passei para ela mais ou menos o que eu tava sentindo nesse disco, que eu tinha de visão e eh ideias. E no primeiro rascunho assim já foi pronto, não teve alteração, sabe? Acho que a gente conversa muito no mesmo universo. Ela fez alguns ajustes assim de retoque final, mas tipo, foi a primeira literal, não precisou se estender muito. E eu acho que traduziu muito assim a linguagem, porque eu queria uma figura que realmente fosse meio andrógina assim, que é aquela coisa que tá com os braços para cima. E tem ali muitos olhinhos, e uma árvore também que parece um portal. É uma capa que você vai olhando, ela vai abrindo muito, tem muitas tipologias ali. (…) Quanto mais a gente vai olhando, parece que vai ampliando assim. Acho que traduz muito o universo das músicas também, que são bem fluidas, que não tem ali nada determinado.

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Capa por Deborah Amoreira.

Referências e latinidades

Henrique Félix: Vamos falar então sobre referências. Eu acho que é um assunto constante, né? Você também é muito musical, gosta de ouvir artistas novos, artistas diferentes. Todo mundo tem suas referências base, mas nem sempre essas referências vão estar explícitas dentro de um trabalho. É muito sobre escolhas, que podem ser até involuntárias, mas a gente também diz não para algumas referências e diz sim para outras, né? E quais referências você acha que são mais próximas do Abajo del Infierno?

Flecha Kabal: Eu acho que são referências que já estão um pouco incorporadas em mim. Quando as pessoas sempre escutam as minhas músicas, elas associam que é Björk, Grimes, Enya. Mas eu acho que não é que eu não tenha pensado em referências, mas quando eu tenho criado música, eu não vou no intuito de seguir algum artista assim, sabe? Eu acho que as minhas referências estão aqui, mas eu diria que para mim a grande mudança foi pensar a minha música num lugar mais de outras possibilidades. Acho que ir pro espanhol, dar uma aterrada também. Eu acho esse álbum muito terrenal, assim, ele é taurino, nasceu na temporada de Touro também. [risos] E também me trazer um pouquinho pra América Latina. Porque eu sinto que a minha música ela é muito colonizada também, muito pelo que eu consumo. Eu acho que agora eu tô me dando conta de algumas coisas, agora que a gente vai se tornando adulto e começa a ter uma noção mais política também. Eu sinto que a sensação que eu tenho é que eu vou ficar cada vez mais latina, sabe? [risos] (…) Eu acho isso muito importante agora no momento que a gente tá vivendo, de repensar também a nossa maneira de estar no mundo, de ter uma outra relação que não seja só através da competição, do individualismo.

Faixa a Faixa

Flecha Kabal comenta faixa por faixa o álbum “Abajo del Infierno”.

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Contracapa com tracklist do álbum por Deborah Amoreira.

Courage

Flecha Kabal: Essa faixa eu fiz ela bem no comecinho do ano passado, antes de toda a minha viagem para Floripa, que foi quando eu soltei esse vídeo. Eu tinha acabado de terminar e você fica naquele limbo: o que vai ser agora? Como é que vai ser minha vida? Então coragem era algo que eu tava precisando para me movimentar e fazer algo diferente assim. Essa música ela não tem muita letra, né? Ela é mais uma emanação assim vocal. E são poucas frases que eu repito. E uma das frases é “without the fear” (sem medo). Mas quando você escuta também parece “with all the fear” (com todo o medo), sabe? E um amigo me falou isso depois. Eu falei: “Cara, é isso. Coragem é você ir com medo, sabe?”. E sim, eu acho que esse é esse feitiço, né? Você lembrar: coragem é isso. “Without the fear, with all the fear”. (…) Eu desejo coragem em francês (courage). É acho que é a melhor coisa que a gente pode desejar a uma pessoa. Eu te desejo coragem para encarar o que vier e para bancar também teus desejos, para ser fiel ao que você acredita, por mais difícil que seja também é abrir um espaço de respiro que você possa ser você mesmo e produzir arte à sua maneira e viver o mundo com um pouquinho mais de colorido.

Quema todo (Kali ma)

Flecha Kabal: Eu acho que é a faixa mais agressiva que eu já fiz. Ela mostra uma faceta minha que eu tô flertando muito com ela. Eu acho que o meu próximo álbum ele vai ser mais essa pegada agressiva que fala de uma revolta, né, que todo aquariano tem. Bom, eu vivenciei muitos espaços espirituais, religiosos, em que emanavam muita positividade, num lugar que eu reconheço que é necessário para você se alimentar também e fazer parte da vida. Mas eu sentia uma apatia política, sabe? Eles evitavam muito falar dos problemas reais. Eu não vou entrar em detalhes, mas uma das casas que eu ia, um dos dirigentes, por exemplo, apoiava Bolsonaro. Então, eu ficava vendo aquilo assim e tipo: “Como assim? Como é que as pessoas estão de boa com isso? Uma casa espiritual assim, sabe?”. Mas claro, eu sempre fui uma pessoa que religiosamente estive aberto, mas sempre com muita crítica. Essa ideia de que uma religião vai te dizer o que fazer, que você tem que fazer isso e tal, nunca me pegou. (…) E essa música, ela fala da importância da revolta, porque eu acho que a gente tá vivendo uma apatia generalizada, assim, a nossa geração tá muito acomodada. Eu acho que as coisas feias estão acontecendo, a gente tá muito na telinha, né, compartilhando e não tá indo mais pra rua gritar, quebrar tudo. (…) Essa música também emana muito Kali Ma, que é uma deusa do hinduísmo, que fala justamente da transformação, dos ciclos da vida, o caos. Eu tenho uma identificação muito louca com o caos, não sei porquê, o caos sempre está aí, faz parte, é o caos criativo e tudo. A minha carta favorita do tarô é a Torre. Todo mundo tem medo da Torre, eu acho. É aquele lampejo de consciência, sabe? Quando você sabe que algo precisa acontecer e você vai postergando e aí a Torre vem, tipo: “Ou é ou vai ou racha”. Então eu acho que a gente tá precisando de mais revolta, sabe?

This is not a chamber

Flecha Kabal: Essa é uma música que para mim é outro feitiço. Ela não tem percussão, né? Ela é toda uma base, tem alguns elementos que entram. E aí a primeira pergunta que ela faz: “How about I drive myself?” (Que tal eu me conduzir?). É muito nesse lugar, de você se enxergar e poxa, eu posso fazer algo com isso que tá me oprimindo? Eu posso tentar. A gente também não nasce do vácuo e tem as nossas escolhas e faz as coisas acontecerem. Mas o que que é possível dentro disso? Então é uma música que eu faço, me faço essa pergunta, né? “This is not a chamber”. Isso não é um quartinho que eu preciso ficar preso, eu posso sair. “I can choose to go outside”. Repito isso quatro vezes. Eu posso escolher sair. Então, é para lembrar também a gente desse movimento que a gente pode fazer quando as coisas estão pesadas e a angústia bate e às vezes é um trabalho que você não tá dando conta mais e você tá ali só empurrando com a barriga.

Chica

Flecha Kabal: Essa música fala dessa nuance também, luz e sombra. Sol, lua. “Sou como sol, como a lua também”. E eu queria trazer esse brilho pra música e nada mais brilhoso do que uma criança, né? Então pensei na minha sobrinha, que é muito artística também. A minha mãe até brinca: “Essa menina não é filha do teu irmão, não. É tua filha”. [risos] Porque ela fala tudo que eu fazia quando era criança, a Eloá está fazendo agora também. Tá aprendendo flauta. Ela é muito interessada com música, adora desenhar. É uma criança muito amável, sabe? E aí um dia antes, né, de voltar para Florianópolis, eu tava naquela: “Meu Deus, vou finalizar o álbum”. Aí eu gravei essa voz dela, falei: “Vai encaixar perfeitamente aqui no final”. Aí eu ensinei ela a cantar, a gente gravou ali e ela já deu: “Não quero mais”. [risos] E ela amou depois o resultado. E sempre que eu escuto assim, eu sinto muita saudade dela. Uma forma também que eu encontrei de matar um pouquinho da saudade quando eu escuto. Eu amo e a música chama justamente “Chica” (“Menina”) e é essa lembrança também para quando ela crescer. “Deseo tanto que recuerde la vida una sola. No te pierdas tiempo chorando. Desfruta a vida”.

To get high

Flecha Kabal: Essa música surgiu o primeiro instrumental quando eu fui em São Paulo. Ela tem essa energia caótica do início porque acho que traduz um pouco de São Paulo. E aí quando eu fui pra Floripa, eu conheci a Patrícia e ela estava vendendo cogumelos mágicos nos bloquinhos de carnaval. Ela tinha uma plaquinha com um cogumelo neon brilhando. E aí fui lá, a gente conversou trocando ideia: “Ah, eu já viajei pro Egito e tal com grupo de amigas, a gente meditou nas pirâmides”. E eu fiquei com aquela imagem na minha cabeça. Eu sempre tive uma conexão muito profunda com o Egito desde criança. Acho que toda criança viada tem uma admiração pelo Egito. E aí eu tava muito nessa, né, de começar a viajar, de fazer esse movimento. Então isso ficou para mim como um espelho de possibilidade, sabe? Olha onde você pode chegar. Então, eh, a gente se tornou mais próximo. Quando eu fui fazer essa letra, ela fala desses estágios, de to get high, tanto no sentido meditativo quanto recreativo, de se levar. (…) Então, é uma canção que está nesses dois lugares.

Sobre o clipe, eu conheci o Ariel Centeno também em Floripa, foi um “tongo” — a gente fala tongo aqui para ficante. A gente acabou optando por ficar amigos, dois aquarianos. Eu queria muito gravar com ele porque ele já tem uma experiência audiovisual. (…) A gente foi lá nas dunas e foi muito rápido. 50 minutos a gente gravou o clipe. Confiei muito na visão dele e na hora de editar foi “pá-pum”. Aquela coisa da sintonia da colaboração, quando ela flui assim é muito legal. E foi isso. Acho que uma celebração à amizade também. Essas pessoas que você vai encontrando pelo caminho quando você tá viajando, as histórias que você ouve e como elas te influenciam também e vão abrindo a sua visão. Essa música acho que ela me lembra disso, desse colorido que viajar te possibilita também viajar em vários sentidos.

Sacando las piedras

Flecha Kabal: “Sacando las piedras” foi uma frase que uma amiga me disse. “Sacando” é tirando, né, no espanhol. Eu sempre fui uma pessoa que às vezes refletia demais, às vezes até pesava um pouco, eu sinto. Mas um dia uma amiga me disse isso, a gente tava numa “trip” e eu tava com uma mochila assim, ela tirou minha mochila, falou: “Saca as piedras”, aprecia a vista, a gente tá aqui curtindo, sabe?”. (…) Claro, existe essa realidade dura, mas existe uma realidade bonita aqui também. De ser vivida. Mas essa letra ela fala de deixar alguém que você gosta e escolher o movimento. Então, por mais que você goste da pessoa, você se escolher. (…) Obrigado. “Gracias por todo, mucho te quiero”.

Sin

Flecha Kabal: E eu acho que é a música mais profunda do álbum, porque ela fala desse olhar que às vezes a gente tem sobre si mesmo, de às vezes de um moralismo que é autoimposto, de que você tá fazendo algo errado, sabe? De novo eu tô aqui me olhando e: “Nossa, que coisas feias”. Tipo, às vezes essa negatividade também que você não quer admitir. Então é uma música muito densa nesse lugar de poxa, eu não quero isso, mas tá acontecendo, o que que eu vou fazer com isso? E você encarar esses demônios também que tão aí, sabe? É, e aí esse pecado, né, que você se autoimpõe. Porque o pecado, no meu ponto de vista, nada mais é do que a contenção de potencialidade. É um pecado você não exercer essas potencialidades, né?

Pelo direito de voar / I wish you find the things you can not name

Flecha Kabal: Essa é a minha música favorita do álbum. Ela se manifesta. “I can’t keep going like that”. Eu não posso continuar assim. Eu me recuso. Então é esse reconhecer, né, que eu me recuso. E o que que você vai fazer com isso? Aí a música ela faz esse convite para a criação: criar, acreditar, se expressar, às vezes algo que você não sabe, mas que você confia. É esse voto de fé que você dá para si mesmo também. E eu acho uma música muito esperançosa. Me dá vontade de voar. É muito para cima. Ela é para cima, mas ela é intensa também. Uma intensidade. E “I wish you find the things you can not name”. É bem literal. Eu espero que você encontre as coisas que você não sabe nomear.

Vulcana

Flecha Kabal: Essa faixa saiu antes em Enfer como “Vulcão de Mim”, era esse desejo também de experienciar coisas e me abrir também para outras experiências. Então, é essa simbologia da lava também que ela vai, ela se espalha, esparrama. E também lágrimas de lava. Então, como chorar também te abre canais que às vezes a gente fica nessa do “não, não pode chorar, não pode ser triste”. Às vezes é importante também se permitir nesse lugar da tristeza, mas ela é mais celebrativa. Eu queria trazer isso mesmo, esse contraponto assim, de, poxa, é isso, a vida. Vamos viver uns momentos de alegria, de tristeza, mas vamos dançar.

You saw me like no one else

Flecha Kabal: Ela é aquela faixa piano. “Você me viu como ninguém mais viu”. Ela é bem pro meu ex. Não tem muito o que dizer. Tá bem explícito. Mas eu não tenho problema em dizer isso. Acho que a gente viveu coisas muito boas, a gente terminou se amando e você se dá conta disso que você precisa terminar porque os planos eram outros. É muito mais difícil do que quando acontece algo ruim, sabe? Então a gente precisou terminar porque os planos eram outros. Eh, mas eu sou muito grato pelo que a gente viveu. E essa música é um reconhecimento também. Ela tem esse ar mais melancólico, porque tô deixando uma pessoa que eu gosto ir embora, mas é de dizer isso, né: “You saw me like no one else”. É uma constatação também.

Colibri

Flecha Kabal: Embora ela não tenha letra, ela é uma canção muito abstrata. O refrão tem uma letra: “Been alone, alone long time, come back to me”. Acho que ela se estende um pouco nesse lugar do que eu tava sentindo ali do meu término, né? Dos momentos de solidão, “volte para mim”, mas não no literal, mas a memória, os sentimentos bons que ficam. Então no refrão ela fica literal, sabe? Embora ela não tenha muita letra, mas ela também ainda tá falando desse voo, desse colibri. Tô aqui voando, mas os momentos que a saudade bater, vamos sentir essa saudade. E é a vida, né? Faz parte também da vida.

Courage – Reprise

Flecha Kabal: Coragem de novo, né? Como a coragem não é algo estável, aí ela volta. Olha, lembra daquele acordo que a gente fez lá no começo? Relembra dele. E aí ela, Courage, bem curtinha, né? Sem medo, sem medo, sem medo…

Watching you without me (Cover – Kate Bush)

Flecha Kabal: A Kate Bush, principalmente por ser uma mulher na época que ela tava vivendo, fazendo o estilo de música que ela fazia e bancando, né? É referência inclusive para a Björk. Eu acho ela muito foda. Essa música, “Watching you without me”, eu amo muito, me conecto muito com ela, sempre gostei. E ainda tava nesse momento aí desse pós-término, acho que é bem evidente. “Watching you without me” (Assistindo você sem mim). E a letra fala desse fantasma que fica também dessa pessoa que sai da sua vida, desse luto que você tá vivendo, mas ela tem um tom mais leve, né, de consternação, mas de que ela virou como uma dança também com esse fantasma que fica. Mas eu acho incrível assim as produções dela, eu tentei emular trazendo a minha visão.

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